Quando descobrem que eu sou voluntária em uma organização de proteção animal, eu ouço de várias pessoas: "Que lindo trabalho que vocês fazem! Estão de parabéns!"
O que pode parecer um elogio, na verdade, não é. Frases como essas denunciam uma segregação na sociedade. E essa segregação joga o véu do preconceito sobre a causa da defesa dos animais.
Por que este trabalho tem que ser meu, ou de um grupo, e não de cada cidadão? Se cada pessoa tivesse a consciência de que abandonar e maltratar animais é, além de um crime, um sinal de ignorância, desinformação, falta de educação e - às vezes - o indício de uma grave perturbação psicológica, eu ou um pequeno grupo não precisaríamos fazer o trabalho que é todos fazer.
Este trabalho não é só recolher um animal que vaga pelas ruas, sujo, faminto, doente. O trabalho é olhar para sua rua e se apropriar dela. Olhar grande, com olhos bem abertos, questionadores. É olhar pra ela e ver que, de repente, a coleta de lixo não está sendo realizada. E que, pior ainda, muitos vizinhos usam qualquer espaço da via pública como lixeira. E depois reclamam de ratos, baratas, escorpiões... e o ciclo é alimentado, porque daí vem a infestação de mosquitos em decorrência da sujeira das ruas, vem o mosquito transmissor da dengue, vem o mosquito transmissor da Leishmaniose... todo mundo fica doente, homens e animais...
... porque ninguém está olhando para sua rua.
Por que uma criança de dois anos de idade foi atropelada por uma viatura da polícia em plena tarde, como saiu no notíciário local? Truculência policial? Pode até ser. Ou será que ninguém se perguntou por que uma criança tão novinha estava sozinha numa rua, desacompanhada de um adulto responsável? Porque ninguém olhou pra sua rua. Achou que tinha outro alguém para olhar.
E as frases preconceituosas que protetores de animais sempre ouvem, como: "Por que vocês não vão cuidar das crianças abandonadas?" Simples. Porque já tem gente cuidando. E a revolta se avoluma: "Mas então por que ainda existem tantas pelas ruas?" Elementar: porque ninguém está olhando para sua rua. Se as pessoas que criticam protetores de animais estivessem envolvidas com alguma ação de cidadania, elas conseguiriam entender que recolher um cão da rua é puxar o fio de uma meada que explica muito da condição da nossa sociedade atual, porque não há que se falar em cão, ou criança, ou idoso abandonado, desamparado: há que se falar em quem abandonou.
Eu olho para minha rua e não me conformo. Não sou capaz de achar que os outros é que têm que cuidar de um problema que é coletivo, que afeta cada um de nós. O mundo lá fora não acaba quando eu fecho a porta da minha casa. Minha casa é abraçada pelo mundo lá de fora.
O movimento Crueldade Nunca Mais que, no dia 22 de janeiro de 2012, reuniu milhares de pessoas em 23 estados da federação e em cidades em outros países, quis mostrar que a vida dos outros é nossa vida também, e que nossa vida também é para os outros. Foi um dos dias mais lindos da minha vida e fiquei muito feliz de ter podido estar lá, na Torre de TV, com tanta gente se encorajando a retomar sua rua.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
segunda-feira, 9 de janeiro de 2012
E a Anta de Ouro vai para...
Eu queria acreditar que a humanidade caminha para frente, mas parece que, a cada vez que eu digo para mim mesma com fé que "agora vai!" eu vejo uns dez exemplos de que a gente não vai. Ou vai é pro brejo mesmo. Será que é mesmo como canta o Lulu Santos, que a humanidade caminha a passos de formiga e sem vontade?
Vejam só um exemplo: quando a Christine Lagarde esteve aqui no Brasil em dezembro (acho) de 2011, ela foi entrevistada jornalista William Waak. Ele não é uma Mônica Waldvogel, mas, se ele não tivesse escolhido ir para o Lado Negro da Força (leia-se: o lobby dos PIGs), poderia ser. Então, na primeira pergunta à primeira-dama do FMI, ele quis fazer uma piadinha machista sem-graça, dizendo que uma arma nas mãos de uma mulher era perigoso. Ela - que deve estar tão entendiada de ouvir isso a vida inteira - devolveu com a simples pergunta: "Por quê?", deixando-o muito desconfortável ao tentar emendar o soneto de pé quebrado, colocando o embaraço dele em foco.
Outro exemplo: em uma reportagem do Jornal Nacional sobre as mulheres que estão se formando pilotos na Aeronáutica brasileira, o repórter entrevistou uma piloto, depois do seu primeiro voo solo, visivelmente orgulhosa de si, sorridente, e ela recebe esta bofetada do jornalista: "E agora, vai lembrar que é mulher e vai chorar?"
Por que eu estou falando disso tudo que nem parece ter lugar no Bicho-Homem? É que houve um outro ataque da Besta Anônima (ou melhor, do Anônimo besta) sobre o post do "Filhos, por que tê-los?":
"ahahahh mais uma usando a internet como terapia!! se tivesse um filho, ou sequer um namorado não estaria escrevedno tamanhas baboseiras. brincando com gatos no corredor!! ahahaha"
É fato, eu uso este blog como um desabafo sobre as barbaridades que escuto enquanto envolvida em ações de defesa animal. É um desabafo e uma maneira de pensar sobre o que é o ser humano, sobre nossas noções de humanidade, de bestialidade, nossa relação com nossa animalidade e a humanização dos animais. São fronteiras cinzentas da nossa concepção de ser e de nossa maneira de interagir com o mundo, com o meio ambiente, os animais da fauna urbana, em especial. E abri o blog ao público para que outras pessoas pudessem compartilhar suas impressões. Mas não escrevi este blog para escrever sobre minha vida pessoal e não pretendo dar detalhes dela aqui. Já mencionei ter sido casada, mas não falei sobre minha situação atual (solteira não quer dizer sozinha); já mencionei não desejar ter filhos agora porque tenho outras questões como prioridade, como muitas mulheres da minha idade e da minha época, deste século, neste e em muitos países do mundo. Este blog é um exercício de filosofia, é o meu exercício de pensar "Quem somos nós?". E que resulta na minha atuação pública na sociedade, no meu exercício de política.
Pelo menos eu tento, pelo menos eu ainda exercito meu cérebro e minha mente, e ajo, vou à luta, não fico só reclamando no sofá em frente à tv da política de péssima qualidade que temos no Brasil. Ao contrário do Anônimo besta que, ao continuar apenas repetindo preconceitos, demonstrou irresolutamente que é incapaz de fazer o mesmo. Quem só repete preconceito não pensa.
Sem querer ofender os tapirídeos, mas este Anônimo besta é mesmo uma anta! E a Anta de Ouro vai pra você!
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
Espelho, espelho meu...
... que tipo de animal sou eu?
Eu demorei muito para postar sobre este assunto, em especial, por conta da ampla divulgação na mídia. Não que eu já não soubesse que crimes assim aconteciam, e numa frequência muito, mas muito maior do que as pessoas em geral sabem. Não que na ong a gente já não tivesse recebido e-mails com denúncias de chocantes crimes de maus tratos como este. Não que a gente já não tivesse acolhido animais que foram apedrejados, atropelados, queimados, espancados, mutilados.
Mas é que igualmente me assustou o tipo de reação que as pessoas tiveram contra a criminosa em questão, elas mesmas incitando a outros crimes, elas mesmas cometendo crimes de injúria, de difamação, de ameaça de morte e outros mais. Os comentários abaixo dos artigos em jornais online sobre o horrendo fato deram espaço a um transe coletivo de anti-heróis justiceiros, e me assustaram. O bicho-homem estava todo ali.
Ficou ainda mais claro para mim, e não sei se as pessoas puderam perceber isso também, o paradoxo que é a bestialidade no humano, que não tem correspondência num animal. Os animais apenas caçam para satisfazer suas necessidades básicas; ao atacar, não têm sentimento de ódio nenhum, sentem apenas uma fome imensa, um rush de adrenalina que prepara seu corpo para a efetiva captura de seu alimento. Instinto de sobrevivência e nenhuma consciência sobre si, sobre "a vida, o universo e tudo o mais". Usam de armas desenvolvidas por milhões e milhões de anos de evolução (desculpem-me os criacionistas, mas aqui sintam-se à vontade para substituir para "desenvolvidas por Deus", e o resultado do raciocínio permanecerá o mesmo) para infligir medo, paralisia em sua presa. A eficácia do ato, mas sem ódio. Na máscara boquiaberta de pontiagudos dentes expostos não há maldade. Há o teatro da vida, a ingestão de proteína, a transformação em energia. Não há requintes de crueldade calculados: há a garra no golpe certeiro, a presa no ponto mortal. Fome. Alimento. Energia. Vida. Fome. Alimento...
Não há opção. Não há liberdade. Há a dor da fome, a fraqueza dos membros, o vagar na selva.
Porém, naqueles minutos -- que mais pareciam horas -- em que a mulher que tomara como profissão o cuidado com a vida escolheu cada golpe que ia aplicar naquele cão, e diante de sua pequena filha, que a tudo apreendia, ainda sem entender, havia ódio, raiva, crueldade calculada. Ela era lenta. Ela desferia os golpes e observava a reação da vítima. Ela poderia ter parado -- ela poderia nunca ter começado aquela sessão de tortura! Mas ao menos ela poderia ter parado, logo depois do primeiro golpe, e pensado: "Gente, o que eu estou fazendo? O que eu fiz?" Ela poderia ter se arrependido do que fizera. Poderia ter voltado o pensamento para si e perguntado, enfim, "quem sou eu? essa sou eu?"
Assustar-se e horrorizar-se com sua capacidade de causar tanta dor, tanto estrago, tanto sofrimento. Esta incapacidade de se olhar no espelho e ver o reflexo do monstro que se projeta de nós, a Besta, está faltando. Está faltando nos políticos corruptos, que têm plena consciência de que estão matando em massa quando desviam dinheiro da saúde pública para compra de votos para projetos de enriquecimento pessoal. Está faltando nas pessoas que bebem álcool e depois assumem a direção de um carro, conduzindo um veículo quando não conseguem conduzir seu próprio corpo por alguns passos. Está faltando nas pessoas que vendem seus votos por cargos públicos. Está faltando nas pessoas que jogam lixo e bituca de cigarro no chão, quando a lata de lixo está a poucos passos, ou quando não custa nada esperar para jogar o lixo no lugar certo quando longe de uma lixeira. Está faltando que elas percebam que parte do alagamento nas cidades é culpa delas também.
"The horror... the horror..."
Ela se disse arrependida quando se apresentou ao delegado. Ela se assustou com a repercussão do caso e as ameaças de morte, só isso. Até que ela tenha olhado para o monstro que vive nela, nenhuma possibilidade de ela vir a se tornar, de fato, humana...
Eu demorei muito para postar sobre este assunto, em especial, por conta da ampla divulgação na mídia. Não que eu já não soubesse que crimes assim aconteciam, e numa frequência muito, mas muito maior do que as pessoas em geral sabem. Não que na ong a gente já não tivesse recebido e-mails com denúncias de chocantes crimes de maus tratos como este. Não que a gente já não tivesse acolhido animais que foram apedrejados, atropelados, queimados, espancados, mutilados.
Mas é que igualmente me assustou o tipo de reação que as pessoas tiveram contra a criminosa em questão, elas mesmas incitando a outros crimes, elas mesmas cometendo crimes de injúria, de difamação, de ameaça de morte e outros mais. Os comentários abaixo dos artigos em jornais online sobre o horrendo fato deram espaço a um transe coletivo de anti-heróis justiceiros, e me assustaram. O bicho-homem estava todo ali.
Ficou ainda mais claro para mim, e não sei se as pessoas puderam perceber isso também, o paradoxo que é a bestialidade no humano, que não tem correspondência num animal. Os animais apenas caçam para satisfazer suas necessidades básicas; ao atacar, não têm sentimento de ódio nenhum, sentem apenas uma fome imensa, um rush de adrenalina que prepara seu corpo para a efetiva captura de seu alimento. Instinto de sobrevivência e nenhuma consciência sobre si, sobre "a vida, o universo e tudo o mais". Usam de armas desenvolvidas por milhões e milhões de anos de evolução (desculpem-me os criacionistas, mas aqui sintam-se à vontade para substituir para "desenvolvidas por Deus", e o resultado do raciocínio permanecerá o mesmo) para infligir medo, paralisia em sua presa. A eficácia do ato, mas sem ódio. Na máscara boquiaberta de pontiagudos dentes expostos não há maldade. Há o teatro da vida, a ingestão de proteína, a transformação em energia. Não há requintes de crueldade calculados: há a garra no golpe certeiro, a presa no ponto mortal. Fome. Alimento. Energia. Vida. Fome. Alimento...
Não há opção. Não há liberdade. Há a dor da fome, a fraqueza dos membros, o vagar na selva.
Porém, naqueles minutos -- que mais pareciam horas -- em que a mulher que tomara como profissão o cuidado com a vida escolheu cada golpe que ia aplicar naquele cão, e diante de sua pequena filha, que a tudo apreendia, ainda sem entender, havia ódio, raiva, crueldade calculada. Ela era lenta. Ela desferia os golpes e observava a reação da vítima. Ela poderia ter parado -- ela poderia nunca ter começado aquela sessão de tortura! Mas ao menos ela poderia ter parado, logo depois do primeiro golpe, e pensado: "Gente, o que eu estou fazendo? O que eu fiz?" Ela poderia ter se arrependido do que fizera. Poderia ter voltado o pensamento para si e perguntado, enfim, "quem sou eu? essa sou eu?"
Assustar-se e horrorizar-se com sua capacidade de causar tanta dor, tanto estrago, tanto sofrimento. Esta incapacidade de se olhar no espelho e ver o reflexo do monstro que se projeta de nós, a Besta, está faltando. Está faltando nos políticos corruptos, que têm plena consciência de que estão matando em massa quando desviam dinheiro da saúde pública para compra de votos para projetos de enriquecimento pessoal. Está faltando nas pessoas que bebem álcool e depois assumem a direção de um carro, conduzindo um veículo quando não conseguem conduzir seu próprio corpo por alguns passos. Está faltando nas pessoas que vendem seus votos por cargos públicos. Está faltando nas pessoas que jogam lixo e bituca de cigarro no chão, quando a lata de lixo está a poucos passos, ou quando não custa nada esperar para jogar o lixo no lugar certo quando longe de uma lixeira. Está faltando que elas percebam que parte do alagamento nas cidades é culpa delas também.
"The horror... the horror..."
Ela se disse arrependida quando se apresentou ao delegado. Ela se assustou com a repercussão do caso e as ameaças de morte, só isso. Até que ela tenha olhado para o monstro que vive nela, nenhuma possibilidade de ela vir a se tornar, de fato, humana...
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Filhos, por que tê-los?
Eu chego do trabalho e mal encosto a chave na fechadura e a gataria já começa a miar do outro lado da porta. Recebem-me à porta, roçando entre minhas pernas como que dizendo 'oi!', ao mesmo tempo em que me atropelam, voando para o corredor, onde jogamos "gatobol", ou seja, corremos atrás de bolinha de papel.
É ótimo chegar em casa, encontrá-los e brincar. Eles podem se exercitar, depois de terem passado o dia (dormindo, certamente!) e eu posso me liberar de um dia de trabalho, tirar aquela canseira de ficar muito concentrada, enfrentando as demandas de todos os lados, enfim.
Meus vizinhos já nos conhecem, sabem os nomes dos meus gatos (Lino e Melissa) e a história do abrigado da vez (sempre tenho um, e acolho outro após o primeiro ter sido adotado). Agora estou com o Frodo, que perdeu um olho nas agruras da vida na rua. Eles chegam do trabalho mais ou menos na mesma hora em que eu estou brincando com meus gatos, param, conversam, até se desestressam com os gatinhos. Claro que sempre procuro manter tudo na linha, nada de bolinha batendo na porta de ninguém, e não fico gritando no corredor, não quero incomodar ninguém. Por muito menos, um vizinho qualquer pode inventar de implicar e arrumar um problema, então não quero dar causa ao azar.
Mas há um ano estou morando sozinha neste apê e não tenho mais minha amiguinha, minha enteada, tão linda que tinha até nome de flor. Mas nem por isso acho que meus gatos são substitutos para filhos, que, além de tudo, não são a prioridade da minha vida no momento. Meus gatos são destinatários do meu afeto, sim, e dedicação, pois são seres vivos, quero dar-lhes boas condições de vida, ração adequada, vacinas obrigatórias, coisas do tipo, e afeto, que os mamíferos sentem e sabem expressar à sua maneira.
E então - agora entra a seção Mundinho News, de hoje - uma vizinha, já senhora, vem com essa: "É, num tem minino, né, cuida dos bichinhos!"
Eu relevo comentários de algumas pessoas, não discuto à toa, a menos que as condições para um diálogo frutífero se apresentem. Mas, nesse caso, a bola passou longe do gol. Looonge. E eu não fui buscar.
Só a de papel, pra continuar jogando com meus gatinhos.
É ótimo chegar em casa, encontrá-los e brincar. Eles podem se exercitar, depois de terem passado o dia (dormindo, certamente!) e eu posso me liberar de um dia de trabalho, tirar aquela canseira de ficar muito concentrada, enfrentando as demandas de todos os lados, enfim.
Meus vizinhos já nos conhecem, sabem os nomes dos meus gatos (Lino e Melissa) e a história do abrigado da vez (sempre tenho um, e acolho outro após o primeiro ter sido adotado). Agora estou com o Frodo, que perdeu um olho nas agruras da vida na rua. Eles chegam do trabalho mais ou menos na mesma hora em que eu estou brincando com meus gatos, param, conversam, até se desestressam com os gatinhos. Claro que sempre procuro manter tudo na linha, nada de bolinha batendo na porta de ninguém, e não fico gritando no corredor, não quero incomodar ninguém. Por muito menos, um vizinho qualquer pode inventar de implicar e arrumar um problema, então não quero dar causa ao azar.
Mas há um ano estou morando sozinha neste apê e não tenho mais minha amiguinha, minha enteada, tão linda que tinha até nome de flor. Mas nem por isso acho que meus gatos são substitutos para filhos, que, além de tudo, não são a prioridade da minha vida no momento. Meus gatos são destinatários do meu afeto, sim, e dedicação, pois são seres vivos, quero dar-lhes boas condições de vida, ração adequada, vacinas obrigatórias, coisas do tipo, e afeto, que os mamíferos sentem e sabem expressar à sua maneira.
E então - agora entra a seção Mundinho News, de hoje - uma vizinha, já senhora, vem com essa: "É, num tem minino, né, cuida dos bichinhos!"
Eu relevo comentários de algumas pessoas, não discuto à toa, a menos que as condições para um diálogo frutífero se apresentem. Mas, nesse caso, a bola passou longe do gol. Looonge. E eu não fui buscar.
Só a de papel, pra continuar jogando com meus gatinhos.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Sobre ratos e homens
Luís Antônio Giron é editor da seção Mente Aberta da Revista Época, mas eu nunca tinha visto um contraste tão grande entre o pensamento de um jornalista e o nome de sua coluna. Ele é do tipo que me deu daqueles presentes para reflexão, exatamente por ele mesmo não ter feito a reflexão dele, mas apenas ter repetido preconceitos, maus conceitos, o mais baixo senso comum.
Ele escreveu um artigo chamado Animais de superestimação (aqui) em que descarrega suas abobrinhas cínicas. Eu queria aqui comentar trechos de seu artigo. Vamos começar pelo título, Animais de superestimação. Eu até concordo que exista um problema psicológico na pessoa que distorce sua relação com um animal, transferindo a ele fantasias, pintando suas unhas, colocando perfumes franceses e roupas de grife, coisas do tipo, que tiram a naturalidade do animal e da própria relação bicho-homem. Mas se ele seguisse nessa linha, poderia até escrever um artigo de auto-ajuda. Porém, o subtítulo já anuncia que o show de horrores vai começar: Os mascotes conquistaram a humanidade e hoje gozam de mais vantagens que ela.
Mais vantagens? Em que planeta? No planeta em que existe um país como o Brasil, onde a pena por maus tratos a animais, quando o crime é denunciado e quando é devidamente apurado pelas autoridades competentes resulta na detenção de três meses a um ano, normalmente convertida em prestação alternativa, e aplicação de multinha pelo IBAMA?
Direito não é vantagem. Os direitos dos animais vieram, primeiramente, equilibrar nossa relação com o meio ambiente, e acabaram por nos fazer pensar sobre nossa própria humanidade – ou bestialidade.
Este é o mesmo mundo em que se fala cada vez mais de direitos humanos, e se age em prol de seu respeito e da punição ao desrespeito de seus preceitos. Mas ele diz: “o triunfo dos valores animais sobre os humanos (...) evidencia a queda iminente de nossos valores culturais”. Se ele tivesse acesso aos e-mails que as associações de defesa animal recebem diariamente de pessoas que encontraram bichos atropelados e abandonados, ou de pessoas que querem se desfazer de seus animais porque enjoaram deles, ou querem sair de férias, acho que ele entenderia que não existe triunfo nenhum de animais sobre homens.
Tem mais: “Imagino se todo cidadão paulistano tivesse o direito de defecar em público, acondicionar seus dejetos em sacos plásticos e jogá-los pelas calçadas – como o fazem os donos de cães e gatos”. Bem... a gente não precisa chegar tão baixo, não é? Os tutores de animais que não depositam o dejeto de seus pets no lugar adequado são mesmo mal educados, porém isso não é culpa nem do animal, nem do fato de terem um animal. A pessoa que suja as calçadas certamente tem higiene duvidosa dentro de sua casa.
“Não vai tardar que a prefeitura construa uma rede de banheiros públicos para animais. (...) Agora os pet shops e clínicas vendem um “kit cocô”, com um saco e uma pá de papelão, para facilitar o desserviço.” O tal kit é uma ótima ideia, aliás; excelente se for feito de embalagem biodegradável. O problema não é o kit; se o tutor o joga no meio da rua, o problema é de educação desse tutor.
“Daqui a pouco escreva o que digo: surgirão motéis e casas de swing para bichos.” Será que ele sabe que, independente desta alegoria, a maior parte das pessoas se ausenta da responsabilidade sobre a reprodução de seus animais? Acham uma covardia castrá-lo, mas não enxergam o sofrimento de entrar no cio e ser exposto a doenças sexualmente transmissíveis incuráveis? Sim, animais também as têm – post sobre isso em breve.
Perto do fim, ele fica indignado quando teve de desembolsar uma boa grana para tratar de seu animal doente. Ele encontrou “(...) veterinários que se ofendem se você não os chamar de “doutor”. E cobram o olho da sua cara e da cara de seu cão por qualquer cirurgia.” Veterinários fazem um curso chamado Medicina Veterinária, são médicos de animais, não são açougueiros. Médico de gente também não devia ser chamado de doutor, como todos sabem; é um costume que tem origem antiga. E é ótimo que a medicina veterinária esteja evoluindo a ponto de se especializar em várias clínicas, isso representa progresso tecnológico e científico, pois indica que pessoas estão aprofundando seus conhecimentos sobre os outros animais.
Luís Antônio Giron escreve às terças-feiras. Giron, por favor: não escreva nem às terças, nem em dia nenhum. Nunca mais.
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
O Hóspede Maldito
O post de hoje é baseado em um comentário anônimo que recebi há alguns dias pelo texto "Há gatos e gatos". Apesar de grosseiro, ele me foi um presente. Alguns amigos ficaram indignados, pediram para que eu não o publicasse, mas quem escreve um blog revelando seus pensamentos e, portanto, seus valores, está dando a cara à tapa, está mandando mensagens para o mundo e, pelas leis mais básicas da Física, possivelmente receberá mensagens de volta. Eu sou completamente a favor da comunicação, então, resolvi responder ao comentário na forma de um post porque, como vocês verão, o presente que este comentário me deu foi ser o exemplo perfeito, sem tirar nem por, dos piores valores que vemos em nossa cultura que desvaloriza a vida, que tanto me causa assombro e que me fez começar a escrever este blog terapêutico. Segurem seus estômagos! Tirem as crianças da sala! Protejam as donzelas! Desliguem os aparelhos auditivos das vovós! Run for your lives!
A pérola:
"Deve ser porque ela percebeu que essa atitude moralista desenfreada, essa tentativa de mudar as pessoas, não passa de um desespero em se mudar a si mesmo. Tornar-se importante, de qualquer forma, mesmo que seja para alguns simples animais. Infelizmente é nítido que seja efeito de uma grande sensação de frustração.
Talvez um pouco mais de ponderação e respeito pela atitude do próximo, mesmo que seja contra seus ideiais demonstre um pouco mais de equilíbrio. #ficaadica"
Vocês amaram a cerejinha do bolo, #ficaadica, né? Eu também!
Porém, confesso que tive uma mistura de sentimentos. Eu gargalhei, mas depois eu pensei, puxa, eu comecei divulgando este blog entre amigos pessoais e do trabalho, então, há um traidor entre nós (acho que todo blogueiro deve passar por isso!). Mas, estendendo o benefício da dúvida para melhor garantir ampla defesa, pode ser que ele tenha sido divulgado entre terceiros, amigos de amigos, e alguém com um filtro bem ruim na cabecinha pode ter tido esta leitura das minhas palavras - sim, porque certamente a pessoa que escreveu este comentário não me conhece. Nada, nadinha. Mas não é isso que de fato importa.
Ok. Eu concedo que é sempre bom pensarmos em como nos dirigir às pessoas, coisa que Anônimo me acusou de não fazer e acabou não fazendo ele mesmo ("#ficaadica" agora pra você, Anônimo!). Eu confesso que eu não escondo de ninguém atuar na defesa animal e estar pronta a travar um diálogo sempre (ou quase sempre) que ouço barbaridades a respeito da questão. É mais ou menos como uma feminista que não vê graça em piadinhas sexistas, não ri quando são contadas e ainda argumenta sobre elas, acabando com a "graça" geral. Porque sabemos que essas ditas piadas são maneiras de suavizar um modo de pensar que oficializa discretamente a dominação de gênero, são maneiras de fazer esta dominação aceitável, disfarçá-la, transferi-la da esfera do drama social para a anedota particular, privada. Escondê-la para que não haja conscientização sobre ela. E tornar quem despertou para o perigo em pessoa "chata", que não sabe se divertir, "relevar" em nome do riso frouxo, da diversão "inocente". Excluir quem não entra na dança e, ademais, a denuncia.
É mais ou menos o que Anônimo fez. Transferiu para mim, ou, como ele diz, pra minha suposta "nítida frustração", pro meu "moralismo desenfreado", a minha atuação social em defesa dos animais. A tal pessoa não deve ter lido o subtítulo do blog, nem a definição que coloquei sobre meu perfil. Eu deixo bem claro que não estou envolvida na causa exclusivamente pelos animais, mas pelo que ela diz de nossa sociedade humana, de como tratamos o meio ambiente, das nossas contradições de valores. Não acho que animais têm precedência sobre seres humanos, mas também não penso o contrário. Como seres viventes, temos todos espaço neste meio ambiente, ou seja, neste planeta. Somos primatas, macacos superiores, símios pensantes. Qualquer livro escolar básico de Biologia nos situa bem dentro do Reino Animal. Mas esquecemos que somos animais. E temos de discutir nossa convivência e nossa sobrevivência neste mundo e os valores que os viabilizam ou inviabilizam.
Coexist, Anônimo!
Aliás, o post que dera origem ao hilariante comentário anônimo era um em que eu mostrava exatamente que pessoas sexistas, machistas e limitadas tentavam insinuar que eu deveria estar namorando em vez de atuar na causa animal - como se fossem coisas mutuamente excludentes, ou como se eu devesse satisfação da minha vida privada aos outros! Ou, exatamente como Anônimo pensa, o alegado vazio de minha suposta frustração me levasse a ocupar meu tempo assim tão livre, tão sem sentido hipoteticamente sem uma vida amorosa participando da sociedade civil. Sim, porque o sentido da vida de uma mulher se resume a estar atrelada ao serviço a um homem, isso sim seria uma ocupação de tempo digna de uma mulher, e não a participação nos assuntos públicos da nossa sociedade. Ah, minha Santa Sufragete, perdoai nosso ignorante Anônimo! Tende ainda mais compaixão se Anônimo se tratar de uma mulher, com sua mente ainda subjugada aos grilhões da dominação sexista!
O pobre Anônimo me acusou de não ser ponderada, de ser desrespeitosa e desequilibrada, esquecendo-se que, na situação que relatei, eu tinha sido apanhada numa situação constrangedora, desrespeitosa, conduzida por pessoas que não pararam para ponderar nem um pouquinho sobre o que queriam fazer comigo. Não sou perfeita e nem me sinto importante, e me saí como pude, tentado sobreviver ao choque do golpe de ignorância sofrido.
O modo como pensamos determina o modo como agimos. Por meio de amigos, pude perceber que nossa cultura é muito leniente com a violência, não só em geral (contra mulheres, gays, presidiários, sem-teto, etc) mas também com relação aos animais. Estou falando da cultura de violência que permitimos crescer em nós. Pode ser coisa de país que viveu num atraso tecnológico grande por muito tempo e precisou usar a força de tração animal e o trabalho animal para cumprir tarefas que já eram executadas por máquinas em lugares mais tecnologicamente desenvolvidos. Eram seres vivos, mas os tratávamos por máquinas e, portanto, seguia o raciocínio e a atitude: máquina não sente, máquina exaure sua vida útil, máquina pode ser jogada fora e substituída. Máquina é pra realizar um trabalho. E assim, fomos desprovendo o animal de viver sem dor, sem tortura, sem abuso, ao mesmo tempo em que fomos aceitando nos tornarmos insensiveis a grunhidos de dor, à esfolação, ao sangramento alheio, a tal ponto que hoje precisamos usar expressões como "direto animal", que parece um absurdo.
Quem se transformou numa máquina fria, por fim? Acho que nós, que criamos em nossas mentes e no mundo o espaço da exploração de um ser vivo que sente dor e nos tornamos insensíveis a isso. Criamos justificativas para sustentar nosso pensar e nosso agir. 'É só um cão', "é só uma vaca", "é só um cavalo", etc. É o Resident Evil que mora escondido em nossa cultura, o Hóspede Maldito nas mentes das pessoas que ainda não se deram conta da origem do problema. Como nosso amigo Anônimo, a estrela de nossa questão de hoje. Coitado.
Na nossa cultura não se percebe que a fauna urbana também é uma questão de meio ambiente; quando se fala em meio ambiente, todo mundo pensa nas baleias do Japão ou na Floresta Amazônica, mas o assunto não se resume a isso. Meio ambiente é a porta da nossa casa. É a nossa casa, aliás! É até mesmo onde ela está situada, se houve desmatamento e desequilíbrio ambiental para que ela fosse construída; é tudo o que você consome e põe no lixo; é você ir comprar pão na padaria da esquina indo de carro, em vez de fazer uma caminhada; é você usar saco plástico no supermercado para embalar suas compras...
Então, sim, Anônimo, eu vou continuar debatendo a questão da defesa animal publicamente; iniciarei debates acalorados, incitarei pessoas, divulgarei ações, vestirei camisas temáticas, acompanharei votações de leis, promoverei pensamentos que possam mudar nossa cultura neste aspecto. Como as feministas, como os ambientalistas, como qualquer um que promova uma sociedade com cultura de paz.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Snoopy no Planeta dos Homens
Planeta dos Homens, vulgo "Mundinho".
Não, não é o Snoopy do genial Charles Schultz. Quem me dera eu pudesse estar falando aqui daquele cãozinho querido, esperto, que sonhava em ser o ás da aviação. Vou contar a história menos afortunada de um outro Snoopy, que nem Beagle era. Era um mix de Dachshund com alguma outra coisa que bem podia ser um Beagle, mas seus "donos" insistiam em dizer que ele era um Pincher.
Soube da existência dele numa conversa com outros conhecidos do trabalho. Contaram que ele tinha sido atropelado e que não mexia mais as patas traseiras. Contaram que queriam dá-lo para alguém que pudesse tomar conta dele... que ele estava dando muito trabalho. Logo já tive todas as indicações do tipo de "dono" com que eu estava lidando, mas acreditei que poderia consertar as coisas. Contei a história da Cacau, de como ela hoje em dia consegue andar até sozinha, depois de um acidente parecido, para mostrar pra pessoa que o bichinho tinha recuperação - mesmo que ele não andasse por conta própria, poderia sim se locomover por meio de uma cadeira de rodas feita sob medida pra ele e assim voltar a ser independente, na medida do possível, dando menos "trabalho" e preocupação.
Aparentemente a pessoa se convenceu e montamos um esquema para eu levá-lo ao hospital veterinário da UnB. A "dona" de Snoopy morava numa cidade muito humilde, longe do trabalho, mas no dia seguinte ela o trouxe na caixinha de transporte de meus gatos, que eu havia emprestado. Numa operação de guerra, saí com ele do trabalho direto pro hospital veterinário, que infelizmente estava fechado pra reforma - no meio do semestre letivo (comentários -- revoltados -- em futuro momento oportuno). Tive de deixá-lo em meu apartamento, para pânico dos meus gatos. Combinei com sua "dona" que a buscaria na saída do trabalho, levaria-a a minha casa e a deixaria na rodoviária para que ela pudesse levar Snoopy de volta pra casa para que voltasse na data da consulta que eu havia agendado em outro hospital veterinário.
Na hora combinada para sairmos, a pessoa já tinha ido embora mais cedo. Eu liguei pra ela; da primeira vez, ela atendeu e desligou logo depois que eu me identifiquei. Depois não atendeu mais. Snoopy passou a noite na minha casa, chorando. Eu fiz o possível para dar-lhe o maior conforto, para levá-lo de volta no dia seguinte para sua "dona". O pobre bichinho não parou de chorar a noite inteira. Meu coração estava partido e eu chorava muito, junto com ele. Tentava acalmá-lo e fiz muitas orações pela sua recuperação e bem-estar. Não conseguia acreditar que ele estava ali, abandonado, tão só, sem compreender por que estava ali, naquele lugar que não era o dele... quanto medo ele deve ter sentido. Claro, senão não estaria chorando, uivando dolorido e saudoso. Não era a privação de sono que me doía, eu já nem sabia mais que horas eram, mas me doía no fundo do coração aquela solidão que ele sentia. E me doía minha limitação em ajudá-lo. Se eu tivesse condições, eu ficava com ele. Enquanto estive com ele em casa, ele se arrastou atrás de mim, me seguindo. Pobre bichinho, somente queria alguém para protegê-lo...
No dia seguinte, a tal pessoa se assustou ao me ver indo procurá-la, com cara de poucos amigos e de uma noite inteira mal dormida. E chorei muito diante dela pelo fato dela o ter abandonado comigo e não ter retornado minhas ligações, nem me dado explicações, nem me procurado antes de sair, sendo que eu a levaria até em casa se fosse necessário. Eu descarreguei tudo em cima dela. Ela veio me dizendo que deus me abençoasse... e eu não gosto quando colocam deus no meio para se esquivarem de suas obrigações. Disse que deus já tinha me abençoado me dando um olhar compassivo e forças para cuidar dos animais vítimas de maus tratos, mesmo que eu faça pouco em comparação com outras pessoas que entregam suas vidas a essa missão e estão nela há muito mais tempo do que eu. Ela me pediu que a perdoasse, eu disse que a perdoava, mas que ela deveria examinar seus atos e tentar se perdoar e se emendar. Que eu tinha prometido tudo pra ajudar, até a cadeirinha de rodas pra ele, mas ela o tinha abandonado comigo, e ainda assim dizia que ele era de estimação?!
Uma das piores coisas da história foi saber que o bichinho estava assim há pelo menos dois meses. Não, vocês não leram errado, são dois meses mesmo, não são dois dias. Mas acho que o choque final, que me deixou baqueada, que terminou de arrasar comigo, foi quando fui levá-la de carro, com o Snoopy, até sua casa, na hora do almoço. Depois de quase uma hora chegamos lá. A rua era humilde, mas as casas da vizinhança, inclusive a dela, eram amplas, de alvenaria, decentes. Sem muitos acabamentos, mas era uma casa grande -- e ali estava um carro zero, de uma nova coleção de uma marca tradicional, o próprio lançamento do ano, em que se lia um grande adesivo: "Esta é a resposta da promessa de Deus".
Vou parar aqui pra fazer um comentário à parte. Não estou fazendo crítica a religião nenhuma. Mas dado o contexto, um ser vivo, que antes era "estimado", assim que "quebrou", passou a dar trabalho, a ser um inconveniente, algo do qual se livrar sem nem procurar socorro a tempo. Em qual dos dois estava o maior valor para aquela mulher? Não na vida, mas no bem material. Se ela acredita que deus possa premiar as pessoas dessa forma, dando-lhes presentes materiais, é bom pra ela, eu não vou discutir. Não tem nada de mais ela trabalhar e se esforçar para ter um carro, mas eu me espantei ao ver o que ela faz para pagar a prestação de um carro daquele e o que ela não fez em momento algum para minorar a dor de um ser vivo, que continuava se arrastando pelo chão mal acabado da casa e se ralando todo, ficando em carne viva... os rastros de sangue que ele deixava na mesma garagem onde seu carro novinho brilhava. Desculpem, mas esse contraste foi muito chocante pra mim.
Mas isto é um dado de uma cultura capitalista ao extremo. O que valorizamos mais são os bens materiais e fazemos tudo para por um preço em tudo. O Snoopy, para ela, passou a ter menos valor quando ficou aleijado, e ela quis se desfazer dele largando-o comigo. Fazemos isso com nossa própria espécie, que dirá com as outras? Largamos nossos filhos com babás porque dão muito trabalho; largamos nossos pais e familiares idosos em lares e asilos porque dão muito trabalho...
Snoopy voltou para aquela casa e para aquela "dona". Eu ainda dei o contato de outras pessoas que poderiam ajudá-la. Entreguei o caso, não tive estrutura emocional pra continuar lidando com isso. Snoopy que me perdoe um dia. Espero que ela tenha entrado em contato com elas. Quis tanto saber como ele ficou, mas não tinha coragem para perguntar, eu me tremia só de vê-la. Talvez outras pessoas tivessem agido melhor do que eu. Eu fiquei muito movida, doída com esta história, eu estive do lado de uma pessoa que me tratou dessa forma, por meio de seu próprio animal doente. Acho que tinha atingido um limite meu, não sabia mais como lidar com a situação. Quis denunciar, mas tive medo do ambiente do trabalho. A pessoa não me olhava mais nem falava comigo. Eu ainda tenho um tremor frio e um nó no estômago sempre que a vejo passando pelos corredores. Felizmente ela está alocada em outro lugar de modo que não nos encontramos mais tantas vezes. Pensar que ela o deixara agonizando por dois meses antes de me encontrar e que tenha tratado tudo como uma forma de se livrar dele usando de minha boa-vontade (não que eu seja uma santa, somente coincidiu de eu ser a pessoa que tentou ajudá-la no momento)... é algo que não consigo compreender...
Só resta ao Snoopy sonhar que corre veloz com sua cadeirinha de rodas... o ás das rodinhas nas pistas, em seus sonhos...
Não, não é o Snoopy do genial Charles Schultz. Quem me dera eu pudesse estar falando aqui daquele cãozinho querido, esperto, que sonhava em ser o ás da aviação. Vou contar a história menos afortunada de um outro Snoopy, que nem Beagle era. Era um mix de Dachshund com alguma outra coisa que bem podia ser um Beagle, mas seus "donos" insistiam em dizer que ele era um Pincher.
Soube da existência dele numa conversa com outros conhecidos do trabalho. Contaram que ele tinha sido atropelado e que não mexia mais as patas traseiras. Contaram que queriam dá-lo para alguém que pudesse tomar conta dele... que ele estava dando muito trabalho. Logo já tive todas as indicações do tipo de "dono" com que eu estava lidando, mas acreditei que poderia consertar as coisas. Contei a história da Cacau, de como ela hoje em dia consegue andar até sozinha, depois de um acidente parecido, para mostrar pra pessoa que o bichinho tinha recuperação - mesmo que ele não andasse por conta própria, poderia sim se locomover por meio de uma cadeira de rodas feita sob medida pra ele e assim voltar a ser independente, na medida do possível, dando menos "trabalho" e preocupação.
Aparentemente a pessoa se convenceu e montamos um esquema para eu levá-lo ao hospital veterinário da UnB. A "dona" de Snoopy morava numa cidade muito humilde, longe do trabalho, mas no dia seguinte ela o trouxe na caixinha de transporte de meus gatos, que eu havia emprestado. Numa operação de guerra, saí com ele do trabalho direto pro hospital veterinário, que infelizmente estava fechado pra reforma - no meio do semestre letivo (comentários -- revoltados -- em futuro momento oportuno). Tive de deixá-lo em meu apartamento, para pânico dos meus gatos. Combinei com sua "dona" que a buscaria na saída do trabalho, levaria-a a minha casa e a deixaria na rodoviária para que ela pudesse levar Snoopy de volta pra casa para que voltasse na data da consulta que eu havia agendado em outro hospital veterinário.
Na hora combinada para sairmos, a pessoa já tinha ido embora mais cedo. Eu liguei pra ela; da primeira vez, ela atendeu e desligou logo depois que eu me identifiquei. Depois não atendeu mais. Snoopy passou a noite na minha casa, chorando. Eu fiz o possível para dar-lhe o maior conforto, para levá-lo de volta no dia seguinte para sua "dona". O pobre bichinho não parou de chorar a noite inteira. Meu coração estava partido e eu chorava muito, junto com ele. Tentava acalmá-lo e fiz muitas orações pela sua recuperação e bem-estar. Não conseguia acreditar que ele estava ali, abandonado, tão só, sem compreender por que estava ali, naquele lugar que não era o dele... quanto medo ele deve ter sentido. Claro, senão não estaria chorando, uivando dolorido e saudoso. Não era a privação de sono que me doía, eu já nem sabia mais que horas eram, mas me doía no fundo do coração aquela solidão que ele sentia. E me doía minha limitação em ajudá-lo. Se eu tivesse condições, eu ficava com ele. Enquanto estive com ele em casa, ele se arrastou atrás de mim, me seguindo. Pobre bichinho, somente queria alguém para protegê-lo...
No dia seguinte, a tal pessoa se assustou ao me ver indo procurá-la, com cara de poucos amigos e de uma noite inteira mal dormida. E chorei muito diante dela pelo fato dela o ter abandonado comigo e não ter retornado minhas ligações, nem me dado explicações, nem me procurado antes de sair, sendo que eu a levaria até em casa se fosse necessário. Eu descarreguei tudo em cima dela. Ela veio me dizendo que deus me abençoasse... e eu não gosto quando colocam deus no meio para se esquivarem de suas obrigações. Disse que deus já tinha me abençoado me dando um olhar compassivo e forças para cuidar dos animais vítimas de maus tratos, mesmo que eu faça pouco em comparação com outras pessoas que entregam suas vidas a essa missão e estão nela há muito mais tempo do que eu. Ela me pediu que a perdoasse, eu disse que a perdoava, mas que ela deveria examinar seus atos e tentar se perdoar e se emendar. Que eu tinha prometido tudo pra ajudar, até a cadeirinha de rodas pra ele, mas ela o tinha abandonado comigo, e ainda assim dizia que ele era de estimação?!
Uma das piores coisas da história foi saber que o bichinho estava assim há pelo menos dois meses. Não, vocês não leram errado, são dois meses mesmo, não são dois dias. Mas acho que o choque final, que me deixou baqueada, que terminou de arrasar comigo, foi quando fui levá-la de carro, com o Snoopy, até sua casa, na hora do almoço. Depois de quase uma hora chegamos lá. A rua era humilde, mas as casas da vizinhança, inclusive a dela, eram amplas, de alvenaria, decentes. Sem muitos acabamentos, mas era uma casa grande -- e ali estava um carro zero, de uma nova coleção de uma marca tradicional, o próprio lançamento do ano, em que se lia um grande adesivo: "Esta é a resposta da promessa de Deus".
Vou parar aqui pra fazer um comentário à parte. Não estou fazendo crítica a religião nenhuma. Mas dado o contexto, um ser vivo, que antes era "estimado", assim que "quebrou", passou a dar trabalho, a ser um inconveniente, algo do qual se livrar sem nem procurar socorro a tempo. Em qual dos dois estava o maior valor para aquela mulher? Não na vida, mas no bem material. Se ela acredita que deus possa premiar as pessoas dessa forma, dando-lhes presentes materiais, é bom pra ela, eu não vou discutir. Não tem nada de mais ela trabalhar e se esforçar para ter um carro, mas eu me espantei ao ver o que ela faz para pagar a prestação de um carro daquele e o que ela não fez em momento algum para minorar a dor de um ser vivo, que continuava se arrastando pelo chão mal acabado da casa e se ralando todo, ficando em carne viva... os rastros de sangue que ele deixava na mesma garagem onde seu carro novinho brilhava. Desculpem, mas esse contraste foi muito chocante pra mim.
Mas isto é um dado de uma cultura capitalista ao extremo. O que valorizamos mais são os bens materiais e fazemos tudo para por um preço em tudo. O Snoopy, para ela, passou a ter menos valor quando ficou aleijado, e ela quis se desfazer dele largando-o comigo. Fazemos isso com nossa própria espécie, que dirá com as outras? Largamos nossos filhos com babás porque dão muito trabalho; largamos nossos pais e familiares idosos em lares e asilos porque dão muito trabalho...
Snoopy voltou para aquela casa e para aquela "dona". Eu ainda dei o contato de outras pessoas que poderiam ajudá-la. Entreguei o caso, não tive estrutura emocional pra continuar lidando com isso. Snoopy que me perdoe um dia. Espero que ela tenha entrado em contato com elas. Quis tanto saber como ele ficou, mas não tinha coragem para perguntar, eu me tremia só de vê-la. Talvez outras pessoas tivessem agido melhor do que eu. Eu fiquei muito movida, doída com esta história, eu estive do lado de uma pessoa que me tratou dessa forma, por meio de seu próprio animal doente. Acho que tinha atingido um limite meu, não sabia mais como lidar com a situação. Quis denunciar, mas tive medo do ambiente do trabalho. A pessoa não me olhava mais nem falava comigo. Eu ainda tenho um tremor frio e um nó no estômago sempre que a vejo passando pelos corredores. Felizmente ela está alocada em outro lugar de modo que não nos encontramos mais tantas vezes. Pensar que ela o deixara agonizando por dois meses antes de me encontrar e que tenha tratado tudo como uma forma de se livrar dele usando de minha boa-vontade (não que eu seja uma santa, somente coincidiu de eu ser a pessoa que tentou ajudá-la no momento)... é algo que não consigo compreender...
Só resta ao Snoopy sonhar que corre veloz com sua cadeirinha de rodas... o ás das rodinhas nas pistas, em seus sonhos...
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