quinta-feira, 12 de abril de 2012

A idade do amor

Outro dia vi num jornal da TV uma reportagem sobre as vantagens da adoção de crianças além dos três anos de idade, coisa que aqui no Brasil não costuma acontecer, e isso me remeteu à analogia da situação dos animais mais velhos que aguardam adoção. Infelizmente, no Brasil, as duas situações - crianças e animais que já não são mais filhotinhos - são preteridos na hora da adoção. Mas quais são as expectativas de quem quer adotar filhotes? Quais são suas ilusões?

Digo "ilusões" porque muitas vezes suas escolhas são, definitivamente, realizadas sem mais reflexão ou autoquestionamento. Os potenciais adotantes brasileiros preferem meninas recém nascidas brancas, possivelmente com o desejo inconsciente de que elas sejam mais mansas, por serem meninas (ou seja, não vão dar trabalho), mais maleáveis, por serem recém nascidas (ignorando algumas características, inclusive de personalidade, que são de fato transmitidas geneticamente) e por se parecem com eles, possivelmente mais "brancos". Querem satisfazer seus desejos de uma criatura à sua semelhança, mas não querem estender o tapete vermelho de seus corações à possibilidade de amar alguém que não se encaixa nos seus rígidos pré determinados padrões.

A isso se deveria chamar, claramente, de apego. Apego a si mesmo. Adotar alguém não é isso, ou não deveria partir disso. Adotar alguém é oferecer a oportunidade de ter um lar, uma família, carinho, atenção e amor, educação de melhor qualidade, acesso à saúde, a possibilidade de desenvolver seu potencial humano em melhores condições do que num abrigo estatal, com todas as suas limitações.

O mesmo acontece quando se procura adotar animais. Cães são preferidos a gatos; fihotes são preferidos a jovens, mesmo os que têm apenas 1, ou 2 ou 3 aninhos; vira-latas são preteridos a animais "de raça". Em um evento de adoção que promovemos na ong, muitas pessoas chegaram perguntando se tínhamos "Beagles", ou "Poodles", ou "Labradores"! Como se estivéssemos numa loja vendendo blusas. Tem da cor azul? Tamanho M?

Animais que já não são mais filhotes têm a mesma capacidade de aprender novos hábitos, abandonar antigos, criar novos laços afetivos, amar os novos tutores. Não depende deles, depende da dedicação dos novos tutores. Nenhum animal vem pronto, sabendo como usar a caixa sanitária ou o jornalzinho do xixi na área de serviços, ou sabendo que não deve roer a perna da mesa ou o par de tênis, ou arranhar o sofá (embora todos estes comportamentos tenham explicação). Somos nós os responsáveis por indicar a eles o que é o comportamento aceitável ou não. E sim, teremos de repetir a lição muito mais de uma vez, até que eles absorvam os novos condicionamentos.

Só aí é que vemos o tamanho do nosso amor e a nossa real disponibilidade para amar. Tem gente que cansa e devolve o animal. E isso já aconteceu com pessoas também. Crianças já foram devolvidas por "dar trabalho".

Vidas não são mercadorias. E não devem estar à diposição de nossas vaidades. O ato de adotar pessoas ou animais deveria ser um ato precedido da autoreflexão: realmente sou capaz de amar?

Neste sábado, dia 14 de abril, a partir das 10h, no Pet do Toy Zé, na 308 norte, haverá um Dia da Adoção BsbAnimal. Aproveite para conhecer os animais que esperam por alguém com coração grande o suficiente para amar "fora da caixinha"!

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Mulher, esse animal político

No dia 24 de fevereiro, mal se falou sobre os oitenta anos da conquista do voto feminino no Brasil. Eu vi mais notícias sobre o assunto nas mídias ligadas ao Estado: na TV Câmara, na NBR, mas pouquíssimo na rede privada, a das grandes empresas. Se eu não fosse uma mulher brasileira, eu teria estranhado muito mais, em especial porque o foco ficou na velha ladainha da "baixa participação das mulheres na política".

Eu não sei que pouca participação é essa, e de qual política estão falando. Ao olhar os movimentos sociais e, no meu caso específico, as entidades de proteção animal, eu vejo uma maioria de mulheres muito atuantes: elas se mobilizam para resgatar, levar às clínicas, correr atrás de patrocínio, parcerias e doações, mobilizam vizinhos, colegas de trabalho e familiares para a causa, procuram deputados para apresentar projetos de lei, buscam as mídias para denunciar as omissões do Estado nos assuntos sociais que se relacionam com a questão da proteção animal... Isso é pouco? Ou acaso isso não é política? O que é a política, afinal?

Certamente não é aquilo que se apresenta no Congresso Nacional. Ou melhor, felizmente, não é só aquilo. Aquele lugar em que se reservam "cotas" para a participação de mulheres, num sistema em que os partidos são liderados por homens, embora 52% da população eleitora seja composta de mulheres. A caixa preta que é o Congresso Nacional, e a política-politicagem que realizam, não são para mim a definição de política, mas a de um não-fazer político, uma vez que aquela maioria de homens representa grupos de interesse de dominação local em benefício de suas famílias e interesses privados. Suas pretensões paroquiais são as que promovem, por exemplo, as vaquejadas como manifestações de "cultura popular" - porém, sabemos que eles as promovem pelo volume de dinheiro que movimentam, inclusive, para seus próprios negócios familiares.

As mulheres estão retomando o fazer político, levando-a de volta à praça pública, que é seu lugar. São elas que denunciam a falência do poder público ao levantar uma petição pública on line contra o abate ilegal de animais no Centro de Controle de Zoonoses de Brasília, por exemplo. Porque, ao expor esta questão, elas mostram que a Secretaria de Saúde sucateou a CCZ de Brasília, que ela passa por cima da legislação local e federal sobre os maus tratos aos animais, que ela deixa de cumprir determinações legais impostas pelo Governo do Distrito Federal, que ela vive à espreita, à espera de não ser revelada, ou de contar com a alienação da população. Mas o lugar das mulheres e da política é nas ruas, é ao sol, e se dá na via da liberdade.

Não vamos agir apenas dentro da caixa preta do Congresso Nacional, ou da Câmara Legislativa de Brasília, ou em reuniões com equipes de assessores de Secretários. Vamos trazer a política ao seu lugar de origem, essa primavera árabe que estamos vivendo no movimento de proteção animal.

O lugar da política não é lá dentro de um prédio, é cá fora nas ruas - onde as mulheres estão.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A égua e os burros


Há algumas semanas, os cidadãos de Brasília ouviram chocados a notícia de que uma égua, que puxava a carroça de um catador de recicláveis, agonizou até à morte em plena via pública onde ela e seu condutor haviam sido atingidos por um carro (leia a íntegra da notícia: aqui).

A polícia militar chegou rapidamente ao local e requisitou que a DIVAL (Divisão de Vigilância Ambiental, conhecida aqui na cidade como Centro de Controle de Zoonoses) fosse recolher o animal, de forma que ele fosse devidamente avaliado e encaminhado a um abrigo até que seu destino fosse resolvido (se devolvida ao dono, e quando, ou encaminhada à proteção de algum abrigo para animais).

A égua esperou três horas pelo resgate, mas morreu. Ela ficou negligenciada por três horas, entre as horas mais quentes do dia (o acidente ocorrera por volta das 11h30 da manhã) no calor do asfalto. Pessoas passavam pelo lugar derramando água para que seu sofrimento fosse minorado, porém nem estes gestos de compaixão permitiram que ela sobrevivesse. A desculpa da DIVAL/Zoonoses era que a perícia tinha que ser concluída antes que o animal fosse retirado. Desculpe-me a vergonha alheia de ter de fazer vocês leitores passarem pela vergonha alheia de ler isso...

Puxando o fio da meada... O que ocorreu com este animal ocorre com seres humanos todos os dias em Brasília - não que o sofrimento de um ou de outro seja menor ou maior, mas o que causa o sofrimento de ambos é que é realmente doloroso de conhecer. Viver na cidade mais desigual do país, segundo foi recentemente divulgado pelo IBGE, traz exemplos diários do que é a selvageria de uma cidade cujos gestores se utilizam dos cargos políticos que ocupam para satisfazer interesses particulares. Não gerem a saúde pública, o transporte público, a educação pública - que não são difíceis de administrar. O suprimento de remédios, sua compra e distribuição, pode ser feita com planejamento das licitações e observando as estatísticas dos estudos populacionais. Não existem desculpas para não haver médicos nos centros de saúde, nas UPAs, nos hospitais. Não existem desculpas para não haver material de trabalho para eles, que, quando falta, muitos têm de se juntar aos enfermeiros e aos técnicos para fazer uma "vaquinha", juntar dinheiro e comprar nas farmácias próximas! Eles custeiam esparadrapos, gaze, do próprio bolso, para atender aos pacientes que precisam de curativos! Não existem desculpas para as escolas públicas do Distrito Federal estarem em péssimo estado de conservação. Alguns alunos contribuem com o quadro, depredando o patrimônio público? Mesmo assim não é desculpa para que a escola permaneça em ruína. Há ações que podem ser tomadas junto aos pais e responsáveis, a comunidade, para conscientizar a pequena parcela de maus alunos. Não existem desculpas para o centro cirúrgico do Hospital Veterinário da UnB ter ficado fechado, em 2011, sem poder atender aos casos operatórios, em plena vigência do semestre letivo, prejudicando não apenas aos animais mas também aos alunos que atrasaram esta matéria no semestre. A reforma poderia sim ter sido feita durante o período de férias (que dura de dezembro a março).

Não existem desculpas para que o serviço público não funcione. Desconfio que a égua tenha sido negligenciada por seu acidente ter coincidido com a hora do almoço dos funcionários da DIVAL/Zoonoses. O que me faz pensar assim? Bem, vejamos: quando eu mesma fui lá para adotar meus dois gatos, já na entrada, ao perguntar se havia gatos para adoção, os funcionários me disseram que não. Mas eu estranhei, porque havia visto uma matéria em um jornal local de que a Zoonoses estava cheia de animais à espera de adoção, caso contrário, seriam mortos. Ao ouvir isso, levaram-me ao gatil, advertindo-me de que havia apenas dois disponíveis Quando chego ao gatil, qual não foi minha surpresa ao constatar que havia quase 30 gatos disponiveis para adoção!

A mentalidade dos funcionários do lugar é: se todos os animais que aqui chegam forem adotados, não haverá serviço para nós, e seremos dispensados, perderemos nosso emprego. Esse infeliz pensamento não é somente culpa dos servidores da casa, mas do fato de a DIVAL/Zoonoses ser um órgão sucateado, negligenciado pela própria Secretaria da Saúde do GDF, a quem está subordinado. Não há concursos para renovar a força de trabalho, não há cursos de capacitação para os funcionários e, até o momento, pouquíssima vontade de abertura para estabelecer parcerias com as organizações de proteção animal.

É claro que não pretendo generalizar. Não são todos os funcionários do órgão que trabalham mal. É aí que entra aquele velho conflito entre os técnicos e os políticos, em que os técnicos têm uma melhor visão do funcionamento do órgão, mas este, sua estrutura, seu orçamento, nas mãos de inescrupulosos políticos (neste caso, assim agindo, são psicopatas e genocidas) servem apenas a interesses particulares de enriquecimento pessoal e manutenção do poder local. Os técnicos têm pouco poder de ação nestes casos.

A morte de uma égua retrata, portanto, como toda Brasília funciona. Ela, e milhares de cidadãos esperam que seus governantes atendam às suas demandas e necessidades; estas, porém, podem até ser ouvidas, mas são prontamente ignoradas. Um animal negligenciado, pessoas negligenciadas como animais, na cidade mais desigual do Brasil... é uma realidade que não não serve mais.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Meu telhado de vidro

Recebi outro dia, de presente, pelo correio, um exemplar da revista da Fondation Brigitte Bardot na França, instituída pela atriz para angariar fundos para a causa da proteção aos animais e promover conscientização, disseminar informações, entre várias outras atividades. Eu fiquei muito feliz por ter recebido o exemplar da revista, havia uma série de reportagens com ações muito interessantes que podem ser realizadas por aqui também, minha imaginação fervilhou com novas ideias.

Porém, eu lembrei que Madame Bardot é também uma apoiadora da extrema direita francesa, que prega a expulsão dos ciganos, a proibição do véu pelas muçulmanas, a deportação de imigrantes, entre outras atrocidades e violações aos direitos humanos. Talvez nem todos saibam disso, especialmente ao lembrar daquela moça de olhar maroto, tão à vontade com sua beleza e sex appeal, exalando alegria de viver... e recordando seu envolvimento com a causa animal, há décadas, quando o assunto não era ainda tratado com a amplitude de hoje. Uma mulher que dedicava o passar de seus anos a defender focas bebês, cavalos, baleias, todos os outros animais...

Hitler, ao que consta, era vegetariano. E amava animais. Ao menos, tratava seus cães com dedicação, ou o que se pode chamar disso; há bonitas fotos dele entre seus cachorros imponentes. O que nos choca ainda mais, ao considerar a absoluta miséria - moral, ética, política, material, espiritual, etc, etc, etc - com que tratou demais seres humanos.

Eu nunca entendi pessoas que dizem amar mais os animais que os homens. Para começo de conversa, também somos animais. Estamos inseridos no meio ambiente assim como os demais animais, e participamos da cadeia da vida com eles, interferimos nela, provocamos-lhe alterações. Se fôssemos criatura tão superior assim, não estaríamos cometendo o suicídio de hoje, ao destruir exatamente o que nos sustenta. A visão do homem destacado dos demais animais é o que causa essa impressão errônea de que os outros animais são objetos a nosso dispor, e que procura nos redimir dos prejuízos que lhes causamos.

Por outro lado, também não acredito que os animais sejam a nossa redenção. Quando domesticamos gatos e cachorros há milhares de anos, nos tornamos responsáveis por eles. Eles tinham suas funções a cumprir, e hoje a principal função deles - se é que se pode falar em função - é a troca afetiva. Já temos outros dispositivos que nos auxiliam na guarda de nossas casas, na segurança, da preservação dos alimentos a salvo de roedores e insetos... os antigos trabalhos que demos aos cães e aos gatos já foram tomados por máquinas, em sua maioria. Liberados de seus antigos trabalhos, a troca afetiva que hoje eles nos dispensam realiza verdadeiros milagres terapêuticos em presídios, asilos, hospitais, abrigos, ao lado de pessoas com vários tipos de deficiências, e também em nossas casas, em nossa companhia. Mas não porque haja algo na natureza deles que nos seja miraculosa, e sim porque nos permitimos o exercício da humildade perante nossa própria natureza, na nossa relação com os animais. É porque estamos juntos que superamos aquela ilusão de superioridade que nos tirou do caminho.

E, olhando para a foto de Madame Bardot, lembrei das minhas próprias limitações. Minha estranheza, ao sentir aquela aparente contradição, nauseando meu estômago, me levou à boca o amargor de minhas próprias limitações. Trouxe a lembrança dos meus fracassos na proteção, das histórias perdidas, de animais que não puderam ser ajudados, das vezes em que tive de fechar os olhos, de pessoas que não aceitaram as orientações da ong, da briga de egos competitindo por reconhecimento acima do bem-estar animal, dos desentendimentos...

Uma racista, que não só ama mas age em defesa dos animais, me fez lembrar de quem eu era e do que realmente importa neste mundo. Ela pode não ser melhor do que eu, mas certamente eu também não sou melhor que ela. Ela lá, eu cá, precisamos apenas continuar lutando pela causa animal.

God moves in mysterious ways...

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

A vida dos outros

Quando descobrem que eu sou voluntária em uma organização de proteção animal, eu ouço de várias pessoas: "Que lindo trabalho que vocês fazem! Estão de parabéns!"

O que pode parecer um elogio, na verdade, não é. Frases como essas denunciam uma segregação na sociedade. E essa segregação joga o véu do preconceito sobre a causa da defesa dos animais.

Por que este trabalho tem que ser meu, ou de um grupo, e não de cada cidadão? Se cada pessoa tivesse a consciência de que abandonar e maltratar animais é, além de um crime, um sinal de ignorância, desinformação, falta de educação e - às vezes - o indício de uma grave perturbação psicológica, eu ou um pequeno grupo não precisaríamos fazer o trabalho que é todos fazer.

Este trabalho não é só recolher um animal que vaga pelas ruas, sujo, faminto, doente. O trabalho é olhar para sua rua e se apropriar dela. Olhar grande, com olhos bem abertos, questionadores. É olhar pra ela e ver que, de repente, a coleta de lixo não está sendo realizada. E que, pior ainda, muitos vizinhos usam qualquer espaço da via pública como lixeira. E depois reclamam de ratos, baratas, escorpiões... e o ciclo é alimentado, porque daí vem a infestação de mosquitos em decorrência da sujeira das ruas, vem o mosquito transmissor da dengue, vem o mosquito transmissor da Leishmaniose... todo mundo fica doente, homens e animais...

... porque ninguém está olhando para sua rua.

Por que uma criança de dois anos de idade foi atropelada por uma viatura da polícia em plena tarde, como saiu no notíciário local? Truculência policial? Pode até ser. Ou será que ninguém se perguntou por que uma criança tão novinha estava sozinha numa rua, desacompanhada de um adulto responsável? Porque ninguém olhou pra sua rua. Achou que tinha outro alguém para olhar.

E as frases preconceituosas que protetores de animais sempre ouvem, como: "Por que vocês não vão cuidar das crianças abandonadas?" Simples. Porque já tem gente cuidando. E a revolta se avoluma: "Mas então por que ainda existem tantas pelas ruas?" Elementar: porque ninguém está olhando para sua rua. Se as pessoas que criticam protetores de animais estivessem envolvidas com alguma ação de cidadania, elas conseguiriam entender que recolher um cão da rua é puxar o fio de uma meada que explica muito da condição da nossa sociedade atual, porque não há que se falar em cão, ou criança, ou idoso abandonado, desamparado: há que se falar em quem abandonou.

Eu olho para minha rua e não me conformo. Não sou capaz de achar que os outros é que têm que cuidar de um problema que é coletivo, que afeta cada um de nós. O mundo lá fora não acaba quando eu fecho a porta da minha casa. Minha casa é abraçada pelo mundo lá de fora.

O movimento Crueldade Nunca Mais que, no dia 22 de janeiro de 2012, reuniu milhares de pessoas em 23 estados da federação e em cidades em outros países, quis mostrar que a vida dos outros é nossa vida também, e que nossa vida também é para os outros. Foi um dos dias mais lindos da minha vida e fiquei muito feliz de ter podido estar lá, na Torre de TV, com tanta gente se encorajando a retomar sua rua.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

E a Anta de Ouro vai para...


Eu queria acreditar que a humanidade caminha para frente, mas parece que, a cada vez que eu digo para mim mesma com fé que "agora vai!" eu vejo uns dez exemplos de que a gente não vai. Ou vai é pro brejo mesmo. Será que é mesmo como canta o Lulu Santos, que a humanidade caminha a passos de formiga e sem vontade?

Vejam só um exemplo: quando a Christine Lagarde esteve aqui no Brasil em dezembro (acho) de 2011, ela foi entrevistada jornalista William Waak. Ele não é uma Mônica Waldvogel, mas, se ele não tivesse escolhido ir para o Lado Negro da Força (leia-se: o lobby dos PIGs), poderia ser. Então, na primeira pergunta à primeira-dama do FMI, ele quis fazer uma piadinha machista sem-graça, dizendo que uma arma nas mãos de uma mulher era perigoso. Ela - que deve estar tão entendiada de ouvir isso a vida inteira - devolveu com a simples pergunta: "Por quê?", deixando-o muito desconfortável ao tentar emendar o soneto de pé quebrado, colocando o embaraço dele em foco.

Outro exemplo: em uma reportagem do Jornal Nacional sobre as mulheres que estão se formando pilotos na Aeronáutica brasileira, o repórter entrevistou uma piloto, depois do seu primeiro voo solo, visivelmente orgulhosa de si, sorridente, e ela recebe esta bofetada do jornalista: "E agora, vai lembrar que é mulher e vai chorar?"

Por que eu estou falando disso tudo que nem parece ter lugar no Bicho-Homem? É que houve um outro ataque da Besta Anônima (ou melhor, do Anônimo besta) sobre o post do "Filhos, por que tê-los?":

"ahahahh mais uma usando a internet como terapia!! se tivesse um filho, ou sequer um namorado não estaria escrevedno tamanhas baboseiras. brincando com gatos no corredor!! ahahaha"

É fato, eu uso este blog como um desabafo sobre as barbaridades que escuto enquanto envolvida em ações de defesa animal. É um desabafo e uma maneira de pensar sobre o que é o ser humano, sobre nossas noções de humanidade, de bestialidade, nossa relação com nossa animalidade e a humanização dos animais. São fronteiras cinzentas da nossa concepção de ser e de nossa maneira de interagir com o mundo, com o meio ambiente, os animais da fauna urbana, em especial. E abri o blog ao público para que outras pessoas pudessem compartilhar suas impressões. Mas não escrevi este blog para escrever sobre minha vida pessoal e não pretendo dar detalhes dela aqui. Já mencionei ter sido casada, mas não falei sobre minha situação atual (solteira não quer dizer sozinha); já mencionei não desejar ter filhos agora porque tenho outras questões como prioridade, como muitas mulheres da minha idade e da minha época, deste século, neste e em muitos países do mundo. Este blog é um exercício de filosofia, é o meu exercício de pensar "Quem somos nós?". E que resulta na minha atuação pública na sociedade, no meu exercício de política.

Pelo menos eu tento, pelo menos eu ainda exercito meu cérebro e minha mente, e ajo, vou à luta, não fico só reclamando no sofá em frente à tv da política de péssima qualidade que temos no Brasil. Ao contrário do Anônimo besta que, ao continuar apenas repetindo preconceitos, demonstrou irresolutamente que é incapaz de fazer o mesmo. Quem só repete preconceito não pensa.

Sem querer ofender os tapirídeos, mas este Anônimo besta é mesmo uma anta! E a Anta de Ouro vai pra você!


terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Espelho, espelho meu...

... que tipo de animal sou eu?



Eu demorei muito para postar sobre este assunto, em especial, por conta da ampla divulgação na mídia. Não que eu já não soubesse que crimes assim aconteciam, e numa frequência muito, mas muito maior do que as pessoas em geral sabem. Não que na ong a gente já não tivesse recebido e-mails com denúncias de chocantes crimes de maus tratos como este. Não que a gente já não tivesse acolhido animais que foram apedrejados, atropelados, queimados, espancados, mutilados.

Mas é que igualmente me assustou o tipo de reação que as pessoas tiveram contra a criminosa em questão, elas mesmas incitando a outros crimes, elas mesmas cometendo crimes de injúria, de difamação, de ameaça de morte e outros mais. Os comentários abaixo dos artigos em jornais online sobre o horrendo fato deram espaço a um transe coletivo de anti-heróis justiceiros, e me assustaram. O bicho-homem estava todo ali.

Ficou ainda mais claro para mim, e não sei se as pessoas puderam perceber isso também, o paradoxo que é a bestialidade no humano, que não tem correspondência num animal. Os animais apenas caçam para satisfazer suas necessidades básicas; ao atacar, não têm sentimento de ódio nenhum, sentem apenas uma fome imensa, um rush de adrenalina que prepara seu corpo para a efetiva captura de seu alimento. Instinto de sobrevivência e nenhuma consciência sobre si, sobre "a vida, o universo e tudo o mais". Usam de armas desenvolvidas por milhões e milhões de anos de evolução (desculpem-me os criacionistas, mas aqui sintam-se à vontade para substituir para "desenvolvidas por Deus", e o resultado do raciocínio permanecerá o mesmo) para infligir medo, paralisia em sua presa. A eficácia do ato, mas sem ódio. Na máscara boquiaberta de pontiagudos dentes expostos não há maldade. Há o teatro da vida, a ingestão de proteína, a transformação em energia. Não há requintes de crueldade calculados: há a garra no golpe certeiro, a presa no ponto mortal. Fome. Alimento. Energia. Vida. Fome. Alimento...

Não há opção. Não há liberdade. Há a dor da fome, a fraqueza dos membros, o vagar na selva.

Porém, naqueles minutos -- que mais pareciam horas -- em que a mulher que tomara como profissão o cuidado com a vida escolheu cada golpe que ia aplicar naquele cão, e diante de sua pequena filha, que a tudo apreendia, ainda sem entender, havia ódio, raiva, crueldade calculada. Ela era lenta. Ela desferia os golpes e observava a reação da vítima. Ela poderia ter parado -- ela poderia nunca ter começado aquela sessão de tortura! Mas ao menos ela poderia ter parado, logo depois do primeiro golpe, e pensado: "Gente, o que eu estou fazendo? O que eu fiz?" Ela poderia ter se arrependido do que fizera. Poderia ter voltado o pensamento para si e perguntado, enfim, "quem sou eu? essa sou eu?"

Assustar-se e horrorizar-se com sua capacidade de causar tanta dor, tanto estrago, tanto sofrimento. Esta incapacidade de se olhar no espelho e ver o reflexo do monstro que se projeta de nós, a Besta, está faltando. Está faltando nos políticos corruptos, que têm plena consciência de que estão matando em massa quando desviam dinheiro da saúde pública para compra de votos para projetos de enriquecimento pessoal. Está faltando nas pessoas que bebem álcool e depois assumem a direção de um carro, conduzindo um veículo quando não conseguem conduzir seu próprio corpo por alguns passos. Está faltando nas pessoas que vendem seus votos por cargos públicos. Está faltando nas pessoas que jogam lixo e bituca de cigarro no chão, quando a lata de lixo está a poucos passos, ou quando não custa nada esperar para jogar o lixo no lugar certo quando longe de uma lixeira. Está faltando que elas percebam que parte do alagamento nas cidades é culpa delas também.

"The horror... the horror..."

Ela se disse arrependida quando se apresentou ao delegado. Ela se assustou com a repercussão do caso e as ameaças de morte, só isso. Até que ela tenha olhado para o monstro que vive nela, nenhuma possibilidade de ela vir a se tornar, de fato, humana...